Perspectivas sobre o Aquecimento Global

on sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Presente em quase todos os círculos de discussão do cotidiano, das mesas de bares, dos meios acadêmicos, das televisões e jornais, das igrejas e governos que anunciam a apocalíptica ascensão do mais destemido "mal do século", encontra-se o debate em torno da problemática do aquecimento global. As conseqüências são clarividentes: o aumento médio da temperatura global em 0,6º C aproximadamente, durante o século XX; as variações nas coberturas de neve nas montanhas e áreas geladas; aumento do nível global dos mares; o avanço dos desertos; o recrudescimento do El Niño entre outros fenômenos. Historicamente, o aquecimento global não é nenhuma novidade.

Por volta do século XI da era cristã, durante a Idade Média, o planeta também experimentou um relativo aumento das temperaturas médias. Ainda que, os dados anteriores ao ano de 1860 não sejam tão precisos e que a Idade Média restrinja-se apenas ao continente europeu, podemos perceber e relacionar um fato importante: as altas temperaturas médias da era medieval foram acompanhadas, inversamente proporcionais, ao nível de autonomia do pensamento humano. Naquele momento histórico da Europa, as pessoas mal sabiam ler e escrever e todo ensino estava sob o controle da Igreja e voltado para vida religiosa.

Atualmente, iniciamos o século XXI com a consolidação global do sistema capitalista, a interdependência planetária das economias, a massificação da cultura do consumo, o domínio dos monopólios empresariais em detrimento dos governos e suas leis e da desenfreada degradação dos recursos naturais do planeta. Ou seja, a irracionalidade das sociedades humanas está em voga novamente. Essa irracional e predatória forma de produção capitalista degrada de maneira tão rápida que o discurso do "desenvolvimento que atenda as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender as suas próprias necessidades" passa a ser uma tarefa para o presente. As conseqüências que temíamos para nossos filhos já são atuais. Mas como podemos identificar os elementos causadores do aquecimento global para planejarmos ações preventivas? Eis a questão pertinente que martela nossas cabeças.

A maior parte dos cientistas acredita que as causas são humanas. Os poluentes humanos despejados na atmosfera causam o aumento do efeito estufa. A superfície terrestre funciona como espelho (albedo), ou seja, toda radiação recebida do Sol é devolvida, em parte, para a atmosfera. Os gases responsáveis pelo efeito estufa (vapor de água, dióxido de carbono, ozônio, CFC’s) realizam a mesma função, mas no sentido contrário, ou seja, eles absorvem parte da radiação infravermelha, emitida pela superfície terrestre, e devolvem outra grande parte para a mesma. O grande problema é que a superfície terrestre recebe, da reflexão dos gases poluentes, quase o dobro da energia recebida diretamente da radiação solar. Com isso, a superfície fica superaquecida e não há dissipação de calor suficiente para manter a temperatura num bom nível. É claro que a superfície terrestre precisa dessa devolução de energia para manter a vida no planeta, mas, o problema é que os poluentes atmosféricos aumentam esse efeito de radiação, podendo ser os responsáveis pelo aumento da temperatura média da superfície do planeta. Um pequeno grupo de cientistas, conhecidos como "céticos", não descartam as causas da emissão de gases poluentes que provocam o efeito estufa, mas acreditam que "forças naturais" (astronômicas) e ainda desconhecidas pela comunidade científica são muito mais influentes e explicam a atual desordem no clima planetário.

Se analisarmos do ponto de vista da paleoclimatologia (estudo dos climas pretéritos), o planeta já passou por períodos de aquecimentos e resfriamentos extremos, durante a sua existência. A dualidade causal (homem X natureza) encontra-se no cerne da discussão. Como diria o geógrafo Milton Santos, nós estamos num período de aceleração da história, de mudanças rápidas e profundas. De mudanças na forma de pensar, agir e interagir. O avanço das técnicas altera as formas de percepção do mundo e, conseqüentemente, as relações de interdependência homem-meio. Estaremos então entrando num período natural de aquecimento do planeta? Ou as ações humanas têm contribuído para a aceleração das alterações bruscas de temperatura global? Como frear a dissipação da paisagem urbano-industrial e da paisagem agrícola mecanizada em nosso planeta? Podemos recorrer a "hipótese de Gaia" para tentar dar resposta a alguns questionamentos.

A teoria de Gaia sustenta a tese de que o planeta é um ser vivo. Para os defensores dessa teoria, é a vida da Terra que cria as condições para a sua própria sobrevivência, e não o contrário, como as teorias tradicionais sugerem. O cantor Raul Seixas conseguiu ilustrar muito bem esse pensamento num trecho da música "As Aventuras De Raul Seixas na Cidade de Thor". Observe:

"Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não agüenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo
"

O cachorro é o planeta Terra e as pulgas são os seres humanos. Pulgas, assim como os homens, são parasitas externos que se alimentam de outros seres vivos. Como se não bastasse as doenças transmitidas pelas pulgas, a sua presença causa grande incômodo sobre a pele dos animais, podendo, até mesmo, desenvolver alergias. Para além dos efeitos, faz-se interessante observar o efeito que os mesmos causam na humanidade, tanto subjetivamente (o pensamento) quanto em suas consequências (o convívio do homem com o meio socio-ambiental e com sua própria subjetividade). Diante do "livrar das pulgas", que é inevitável, como a pulga, consciente disso, comportar-se-á? O "desespero" diante de um destino absurdo (o fim) promove uma série de consequências: como por exemplo o ativismo. Agir em prol de mudanças, como fazem grupos de defesa ambiental (greenpace, earthfirst e demais subculturas que não são, necessariamente, ONG's). Isso soma-se à consciência ambiental de diversas camadas sociais. Portanto, é comum ver pessoas recriminando o ato de, por exemplo, jogar lixo no chão; Por outro lado, diante de um fim iminente (da Terra, com ou sem esse ativismo, que nada mais faz que retardar o processo naturalmente inevitável do "saculejar-se" dos homens), o ativismo, em grande ou pequena escala, em direção "n" ou "d", não provoca nenhum efeito no resultado final do processo de "saculejo", portanto, não salvará as vidas das "pulgas" que estão se mobilizando para tal (uma vez que o ativismo não é por "amor à Terra", mas para não ser "saculejado" por ela). Essa ação desesperadora se envereda pelo desespero do "fim do mundo" (entenda-se como um fim da espécie humana), perdendo todo o sentido de ser. Contudo há, ainda, a vida. E só pode se desesperar alguém que, além de vivo, preza pela vida. Dessa forma, aquele que, vivo, desespera-se ou resigna-se diante de um findar de sua existência (e espécie) não é extrínseco à existência e pode, indiferente às probabilidades de conquista, agir em função de melhorias (se não do meio socio-ecológico em que vive, se sua própria convivência com seu Eu), e isto dá-se, inevitavelmente, pelo agir (já que o conformar-se, resignado, implicaria em um tédio suicida).

Há ainda os mais otimistas que afirmam que o problema do aquecimento global pode, por outro lado, nos oferecer uma grande oportunidade de resolver o problema da guerra e da pobreza. A natureza é um ser vivo, ela é sistêmica, cíclica e imprevisível. Suas reações sintomáticas não são isoladas. Não há possibilidade de resolução do problema sem uma ação global conjunta. Para os otimistas, somente as ações individuais dessa grande massa humana que formam a "teia da vida" somadas a políticas de planejamento de alcance mundial atenuarão o problema (com a formação de vários comitês e conselhos locais). A velha "boa-nova" do cooperativismo e do pacifismo ressurgir-se-á de uma crise. Os otimistas acreditam que os sistemas de sáude, políticas de educação e habitação, atividades econômicas, artes e entretenimento deverão assumir um caráter sustentável. O cooperativismo internacional democratizará esses recursos? Veremos!

por Marco Tráfico e Ogäit Borderline

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