Para onde vão as cidades?

on segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Artigo escrito por: Marco Abreu e Andressa Guidini

I

Existem hoje no mundo 17 grandes centros urbanos, em 1995 havia 14 deles; em 2015 serão 21. A classificação entre as cidades também vai se alterar. As cinco maiores cidades hoje Tóquio, Cidade do México, São Paulo, Nova Iorque e Mumbai (Bombaim). Em 2015 elas provavelmente serão Tóquio, Daca, Mumbai, São Paulo e Délhi.

Segundo as projeções estatísticas da ONU, em 2025, 61% da população mundial estará vivendo em áreas urbanas. Em 1975, este índice era de 37%. O mais agravante é que das 21 maiores metrópoles do mundo, 14 estão em países subdesenvolvidos. Esse cenário é radicalmente diferente de 50 anos atrás, onde apenas 100 aglomerações urbanas tinham mais de 1 milhão de habitantes, e a maioria se localizava nos países ricos. As atividades essencialmente urbanas, como indústria e comércio, respondem por algo entre 50 e 80% do PIB mundial.

Os dados e projeções apontam para um ritmo intenso de urbanização no início do século XXI. A urbanização acelerada fará com que a população urbana ultrapasse a rural, pela primeira vez na história por volta de 2006. Na América Latina, Ásia e África cresce, cada vez mais, o número de pobres vivendo nas cidades, devido ao processo de globalização, desemprego, a desigualdade e exclusão social; onde a capacidade de prover transporte, habitação, água e esgoto é ineficaz. A renda média domiciliar das cidades dos países industrializados é 38 vezes maior do que a cidades africanas. Há mais telefones em Tóquio que em toda a África (que tem 749 milhões de habitantes).

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II

“O processo de urbanização acelerada no mundo está fazendo surgir arquipélagos formado pelas ilhas de modernidade e bem–estar, cercados por um oceano de exclusão, cidades onde impera a miséria” (GOHN, 2003).

Essas “ilhas de modernidade” concentram de tudo o que for preciso para a vida cotidiana, a opulência tecnológica e o consumismo exacerbado são características fundamentais. Muros fortificados atuam como filtros contra invasões externas, onde os grandes condomínios de luxo são totalmente isolados, e preservam a segurança de seus moradores; o isolamento passa a ser um objeto de desejo (ARGULLOL,1994). Por outro lado, encontram-se aglomerações urbanas marginalizadas, desprovidas das oportunidades culturais, educacionais e de emprego (VIANA, 2003). Os conjuntos habitacionais, os guetos e favelas formam as chamadas subcidades, não somente em cidades de países em desenvolvimento, como em muitos grandes centros urbanos, como Los Angeles, Nova Iorque e Paris.

“Ricos e pobres acham-se isolados nos próprios guetos: os ricos atrás dos muros, com segurança privada, e os pobres nas favelas em casa à noite ao som de tiroteios” (ZWINGLE, 2002).

Não se pode dedicar toda essa segregação à falta de planejamento urbano. Segundo a professora de urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Raquel Rolnik, a maioria das cidades tem seu planejamento, porém, foram os próprios planos que produziram a atual situação.

“O resultado foi a expansão de conjuntos habitacionais de péssima qualidade, que acabaram virando cidades-dormitórios.” (VIANA, 2003).

Como os ricos estão cada vez mais abandonando os centros, os pobres vão sendo empurrados ainda mais longe, nas imensas faixas ao longo dos limites da cidade onde não desfrutam de parques ecológicos, centros culturais e esportivos e outras instituições sociais.

III

Para discutir o futuro das cidades, é impossível não relacioná-las com o processo de globalização. Os anos 1990 trouxeram alterações no papel do Estado. Em um movimento que já havia se iniciado em alguns países desenvolvidos, os Estados subdesenvolvidos reduziram os investimentos estatais e privatizaram empresas públicas - incluindo empresas que forneciam água, energia, transportes e habitação. Com isso, aplicava-se uma política econômica que procurava equilibrar as contas públicas e abrir espaços para mais investimentos vindos de empresas privadas, seguindo as orientações de organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Ao mesmo tempo, os países subdesenvolvidos passaram a contar com uma presença maior de investimentos estrangeiros, através de empresas multinacionais.

O efeito da redução do Estado e da globalização incide diretamente nos direitos sociais, políticos e econômicos dos cidadãos que foram conquistados através das lutas históricas dos trabalhadores. A exclusão social daqueles que não podem pagar pelos serviços - que eram oferecidos pelo Estado e que agora são disponibilizados pelo mercado - favorece as atividades ilegais e a agressão ao meio ambiente. As camadas mais ricas podem usufruir de um padrão de consumo semelhante aos do Primeiro Mundo, mas estão rodeadas pela violência e pelo crime organizado, que crescem na "cidade oculta" (MARICATO, 2002). As especificidades de cada local acabam sendo atropeladas por um modelo de urbanismo gestado nos países do Primeiro Mundo.

“A aceleração da urbanização global, nos últimos 30 anos, dá-se de forma concomitante a um processo de concentração de renda e poder.” (GENRO, 2003)

O Estado enfraquecido não tem capacidade de estabelecer coesão social baseada em valores universais de solidariedade, por isso a nova ordem (ou desordem) está permeada por uma ideologia neoliberal que defende os interesses financeiros em detrimento dos valores fraternos de igualdade.

Dentro da lógica capitalista neoliberal o desemprego é essencial para manter as ofertas de trabalho e conseqüentemente a desvalorização dos salários. Essa instabilidade no mercado de trabalho faz com que populações migrantes, se desloquem constantemente, “destruindo laços históricos, tradições e culturas. Exportam culturas e conflitos, para o espaço das grandes cidades, onde os fragmentos tornam-se unidades que ordinariamente conflitam entre si” (GENRO, 2002).

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IV

Segundo a urbanista da Unicamp Maria da Glória Gohn, o antídoto contra o provável caos urbano é o planejamento. Aposta em parcerias entre a sociedade civil e o governo. Preconiza que será necessário coordenar ações locais e iniciativas conjuntas entre cidades de uma mesma região.

“Descentralização, parcerias do governo com a iniciativa privada e participação popular são palavras de ordem e diretrizes preconizadas como solução para os atuais dilemas das cidades. Uma revolução na administração também é proposta: menos burocratas, menor burocracia nos procedimentos de gestão, e maior participação dos cidadãos.” (GOHN, 2003).

O problema da sustentabilidade também deverá ser atacado, ou seja, é preciso criar políticas públicas de criação de empregos para que o desenvolvimento não seja estagnado.

A questão ambiental também é de grande relevância nas cidades (lixo, esgoto, água e poluição atmosférica). GOHN propõe a mudança do combustível e a mudança no motor dos automóveis e dos ônibus.

Todas essas questões urbanas deverão ser analisadas juntamente pelo poder público e pelo chamado terceiro (setor sem fins lucrativos, voltado para questões sociais, composto por ONGs, entidades, associações, movimentos e até algumas pequenas empresas ou cooperativas denominadas cidadãs). GOHN defende a ampliação do chamado “capital social” - uma medida qualitativa que abrange as relações que um indivíduo possui.

Para conter as tensões sócias, deve-se “ampliar a abrangência e a eficiência das políticas sociais que incentivam a sociedade civil a resgatar sua cidadania decidindo prioridades e envolvendo-se na operação de programas públicos.” (GOHN, 2003).

A cidade não pode ser vista como uma simples aglomeração de pessoas separadas por classes sociais ou mesmo como centro nodal de informações, capitais e serviços. O início do século XXI propõe uma nova relação entre os diversos agrupamentos existentes nos centros urbanos. Criar condições para que estes grupos interajam é um desafio. A melhorias dos distritos e periferias, sob a forma centros públicos (parques ecológicos, centros culturais e esportivos) poderá harmonizar as classes sociais, usufruindo igualmente a cidade, em vez de segregar os grupos.


Referências Bibliográficas

  • ARGULlOL, Rafael. A Cidade Turbilhão. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. IPHAN: 1994, p. 59-68
  • GENRO, Tarso. O Futuro das cidades na nova ordem global. In: http://www.comciencia.br/. 2002
  • GOHN, Maria da Glória. O futuro das cidades. Nas redes da Eduação. Revista Eletrônica. Unicamp, 2003
  • GOMES, Paulo César. Introdução. In: A Condição Urbana. Ensaios de Geopolítica da Cidade. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2002. 11-39
  • MARICATO, Ermínia. Dimensões da tragédia urbana. In:http://www.comciencia.br. 2002
  • VIANA, Natália. Quem são os sem-teto. Revista Caros Amigos. Rio de Janeiro, janeiro, 2003.20-22
  • ZWINGLE, Erla. Aonde vai todo mundo? In: Revista National Geographic. Brasil. São Paulo, n. 31, p. 106-133, 9. 2002

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