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sexta-feira, 31 de julho de 2009

O desenvolvimento: entre seus beneficiários e…

…e suas vítimas.
Ricos lamentam as perdas e pobres denunciam a miséria
Nos inícios do ano, os 20 países mais ricos do mundo (G-20) se reuniram em Londres para encontrar saídas à crise mundial. A decisão foi continuar no mesmo caminho anterior à crise, mas com controles e regulações a partir de uma presença maior do Estado na economia. Os controles seriam pelo tempo necessário à superação da crise, a fim de evitar o colapso global, e as regulações para restaurar o crescimento teriam a mesma lógica de antes.
Essa opção implica continuar com a exploração dos recursos naturais que devastam os ecossistemas e fazem aumentar o aquecimento global e o fosso entre ricos e pobres. Se isso prosperar, dentro de pouco tempo enfrentaremos crise de mesma natureza, pois as causas não foram eliminadas. Os restantes 172 países sequer foram consultados. Pensou-se em ajudá-los, mas com migalhas. Toda a África, o continente mais vulnerável, seria socorrida com menos fundos que o governo dos Estados Unidos aplicou para salvar a General Motors.
O impacto perverso da crise sobre os países de baixo ingresso apresenta-se aterrador. Estima-se que, enquanto durar a crise, mais de 100 milhões de pessoas caiam anualmente na extrema pobreza e 1 milhão de postos de trabalho se perderão por mês. Tal fato fez com que o presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, imbuído de sentido humanitário e ético, convocasse uma reunião com os 192 representantes dos povos para, juntos, discutirem a crise e buscarem soluções includentes. Isso ocorreu dias 24 a 26 de junho. Todos falaram. Era impactante ouvir o clamor que vinha da humanidade: os ricos lamentando os trilhões em perdas nos negócios e os pobres denunciando o aumento da miséria de seu povo.
Muitas vozes soaram claras: não bastam controles e regulações que acabam beneficiando os que provocaram a crise. Faz-se urgente um novo paradigma que redefina a relação com a natureza, o crescimento e o tipo de civilização planetária que queremos. Importa elaborar uma Declaração do Bem Comum da Humanidade e da Terra que oriente ética e espiritualmente o sentido da vida.
Depois de intenso trabalho de uma comissão de expertos presidida pelo Nobel de economia Joseph Stiglitz, e com as colaborações vindas de quatro mesas redondas e da Assembleia Geral, concertou-se um documento que ganhou o consenso dos 192 representantes dos povos. O perigo coletivo facilitou uma convergência coletiva rara.
O documento prevê medidas imediatas para salvar os mais vulneráveis. Mas o mais importante é a apresentação de um programa de reformas que prevê um sistema mundial de reservas com direitos especiais de giro, reformas de gestão do FMI e do Banco Mundial, regulações internacionais dos mercados financeiros e do comércio de derivados e criação de um Conselho de Coordenação Econômica Mundial equivalente ao Conselho de Segurança.
Essa cúpula mundial é geradora de esperança, pois a humanidade começa a olhar para si como um todo com um destino comum. Mas todas as soluções se orientam ainda sob o signo do desenvolvimento, o fator principal da crise do sistema Terra. Ele tem que ser trocado por um "modo sustentado de viver", caso contrário assistiremos à bifurcação da humanidade entre os que desfrutam do desenvolvimento e os que são vítimas dele.
O futuro próximo, dizia o presidente da Assembleia, será pela utopia necessária que precisamos construir para permanecermos juntos na mesma Casa Comum.
LEONARDO BOFF
Teólogo
lboff@leonardoboff.com

segunda-feira, 30 de março de 2009

Mundo Global visto do lado de cá.

ENCONTRO COM MILTON SANTOS

Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Direção: Silvio Tendler

DOWNLOAD:

Badongo

Torrent

Última entrevista gravada com o professor Milton Santos no dia 4 de janeiro 2001. Num total de nove partes, o vídeo aborda a temática da globalização e seus efeitos, sobretudo, nos países subdesenvolvidos do planeta.

Parte 1 (Introdução)

Nessa primeira parte, é feito um resgate histórico do processo globalizatório divido em: a primeira globalização (iniciada no século XVI a partir das grandes navegações marítimas) e a segunda globalização (intensificada no final do século XX, após o colapso do mundo socialista, a queda das barreiras, o advento da terceira revolução industrial e construção de um espaço “fluido”).

O vídeo exemplifica as desigualdades sociais entre os países e como estas se intensificaram após a consolidação da globalização.

Para Milton Santos, existem três mundos:

O mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula.

O mundo tal como ele é: a globalização como perversidade.

E o mundo tal como ele pode ser: o mundo como possibilidade... “uma OUTRA globalização.

Frase bacana: "o consumismo é o maior dos fundamentalismos" Milton Santos

Parte 2 (Neoliberalismo)

Nessa segunda parte, o vídeo mostra as conseqüências desastrosas do receituário neoliberal do Consenso de Washington para a América Latina. Em Quito (Equador), em Cochabamba e La Paz (Bolívia), em Buenos Aires (Argentina) e no Rio de Janeiro (Brasil) pessoas se revoltam contra a desnacionalização de suas economias e a onda de desemprego e falências.

Para Milton Santos, as empresas transnacionais, consideradas “centros-frouxos”, fogem ao controle dos Estados, desorganizam os territórios e não se comprometem com a realidade social dos países. Essa produção descentralizada (fábrica global) é exemplificada, no vídeo, com o caso da empresa estadunidense Boeing que recebe componentes de seus aviões de mais de 300 fornecedores do mundo inteiro.

Frase bacana: “A ilusão da moeda controlada e do consumo forte anestesiou a população mediante as “privatizações-saques”. (“saques” por minha conta)

 

Parte 3 (Desemprego, Fome e Água)

Nessa terceira parte, o vídeo denuncia a perversidade da exploração do trabalho no mundo globalizado. Empresas como a Nike, por exemplo, espalham-se mundo a fora em busca de mão-de-obra extremamente barata e custos baixos para a produção e geram, com isso, desemprego em seu país de origem. Com a globalização, o desemprego aumentou assustadoramente, os pobres ficaram ainda mais pobres e a classe média perdeu em qualidade de vida. Hoje, 1,5 bilhão de pessoas vive com menos de US$ 1,00 ao dia.

Para Milton Santos, o planeta consegue produzir uma quantidade suficiente para alimentar todas as pessoas. O problema não é a quantidade de comida, mas como está distribuída. São os mecanismos globais é que decidem quem deve ou não comer.

O vídeo aborda a questão da privatização da água por algumas empresas transnacionais e os movimentos sociais que contestam, afirmando que á água é um bem global.

Frase bacana: “A humanidade se divide em dois grupos: o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem, com medo da revolta dos que não comem”. Josué de Castro.

 

Parte 4 (Imigração e o poder da mídia)

A maior contradição da globalização é apresentada nesse vídeo: a livre circulação de mercadorias, informações e capitais contrasta com os sólidos muros da internacional capitalista que impede a circulação dos indivíduos em busca de emprego, comida, água e paz. EUA e Europa travam guerras constantes para evitar a entrada de imigrantes em seus territórios.

Outra abordagem do vídeo é o poder midiático como ideologia sustentadora da globalização-fábula. Seis empresas controlam 90% da mídia mundial. Os acontecimentos noticiados são interpretados de acordo com interesses predeterminados, uma vez que as agências de notícia pertencem às grandes empresas. Esses meios de comunicação erigiram o livre mercado como pensamento único, como motor da globalização econômica e, assim, anunciaram o fim da história.

Para Milton Santos, esses meios de comunicação controlam de maneira extremamente eficaz a interpretação das coisas que se passam no mundo. A repetição servil dos textos e das imagens não nos permite aferir as notícias.

Frase bacana: “A informação é o grande instrumento da grande finança, instrumento do processo de globalitarismo e de formas totalitárias de vida”. Milton Santos

 

Parte 5 (A técnica como plataforma para a liberdade)

Essa parte mostra como novas técnicas contribuem para a emancipação das comunidades indígenas, as comunidades periféricas e os movimentos populares. O acesso aos novos meios de telecomunicação, microeletrônica e informática (telemática) proporcionam a criação de novas formas mobilização na periferia.

Para Milton Santos, podemos ser universais sem perder a nossa cultura, sem deixar de sermos “indígenas”. A possibilidade de acesso aos meios da telemática possibilita à periferia criar novas formas de inventar/reinventar o mundo, formar opinião e debater assuntos centrais.

 

Parte 6 (A Revanche da Cultura Popular)

Nessa parte, o documentário expõe uma verdadeira rebelião da cultura popular sobre a cultura de massa utilizando instrumentos que, originalmente, foram criados no berço da cultura padronizada.

Para Milton Santos, “o mundo como possibilidade” só poderá ser construído pelos atores de baixo (populações pobres, países pobres e continentes pobres). Combates silenciosos estão sendo travados nos bastidores da geopolítica mundial: o fortalecimento do islã, a revolução educacional da Índia e o sucesso econômico da China, que combina planejamento estatal com mecanismos de mercado.

 

Parte 7 (Os olhares do sul)

Intelectuais africanos e latino-americanos afirmam que esses dois continentes podem oferecer ao mundo uma possibilidade de coexistência pacífica, de alternativas à sociedade de consumo que alimenta as guerras e dizima populações.

Para Milton Santos, nós devemos pensar esse mundo novo a partir de nós mesmos. Devemos deixar de imitar os europeus e os norte-americanos e construir nossa visão de mundo Afirma que existe a ética dos poderosos (que não é uma ética), a ética dos que não tem nada e a ética dos desesperados que encontram na violência o caminho para a mudança. A ética dos poderosos encontra respaldo no direito e nas decisões judiciais, porém, a ética dos pobres começa a ganhar voz na sociedade e criar bases históricas para uma mudança eficaz que atenda a maioria.

 

Parte 8 (Polifonia Política)

Nessa parte, o vídeo apresenta a forma de organização do maior movimento social do Brasil: o MST. Demonstra como o movimento criou novas formas de solidariedade e cidadania através de novos mecanismos de reivindicação. Com o fracasso da democracia, os movimentos populares optaram pela ação direta, pela invasão das ruas, dos prédios públicos e das fazendas improdutivas como forma de protesto.

Para Milton Santos, apesar das formas organizadas e desorganizadas de reivindicação, somente através do Estado é que as mudanças virão. Santos descarta o papel das ONG’s e do terceiro setor, uma vez que estes atendem somente a determinados setores da sociedade. O Estado é que está imbuído de realizar as mudanças socializantes, porque as fontes criadoras de desigualdades sociais foram engendradas por meio deste.

Frases legais:

Nós, a classe média, não queremos direitos, queremos privilégios”. Milton Santos

Feita a revolução nas escolas, o povo a fará nas ruas”. Florestan Fernandes

 

Parte 9 (Por uma outra Globalização)

Para Milton Santos, a globalização é uma forma de totalitarismo, assim como o nazifacismo. A sociedade atual afirma a liberdade e, ao mesmo tempo, a nega. Formas de ação que fogem do padrão são rapidamente censuradas e punidas. A globalização produz esse globalitarismo, que existe para reproduzir a globalização.

Uma outra globalização é possível se nós estivermos dispostos a transgredir os valores da globalização perversa para que possamos construir uma humanidade solidária.

quinta-feira, 5 de março de 2009

É urgente rever os fundamentos...

Não é a razão fria, mas a razão sensível que nos move
É urgente rever os fundamentos que nos levaram ao atual caos
A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma, intrassistêmica, buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos e trabalhando sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nível, a continuidade do projeto planetário humano.
Cada época histórica precisa de um mito que congregue pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador do método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.
Eis que, depois de mais de 300 anos de exaltação da razão, assistimos à loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda a riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores a toda riqueza de 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil, 5.000 famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global, que trará desequilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.
A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada, entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris), e de criticar seu estreitamento na capacidade de compreender. O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M. Maffesoli), pela inteligência emocional (D. Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J. F. Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R. Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.
É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor de milhões de famélicos. Não é a razão fria, mas a razão sensível que move as pessoas para tirá-las da cruz e fazê-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida, desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.
LEONARDO BOFF
Teólogo
lboff@leonardoboff.com